6 a 31 de Dezembro 2008/ Cidadela de Cascais (Apresentação da 1ª série)

"AMUOS E DESAMORES"


L_Herberto_Amuos
Amuos , 2007/ 08
195 x 195 cm, óleo s/ tela

Nas pinturas de generoso formato de Luís Herberto, bem como nos concisos estudos sobre papel que as acompanham, domina esplendorosamente a figura humana, tanto na sua (só aparente) fragilidade ontológica como na sua inefável solidão, mesmo ou sobretudo quando se oferece ao olhar voyeurístico do espectador, sugestionado muito mais pelo que se sugere, excitando a sua imaginação, do que pelo que explicitamente se vê. As monumentais composições de Luís Herberto distinguem-se igualmente por um minucioso trabalho pictórico de definição de espaços vastos, difusos ou neutralizados, em que se encenam as figuras por um aturado trabalho da cor nomeando a forma. Esse trabalho pictórico não descura a citação de géneros e de numerosos tempos anteriores da História da Pintura, definindo, assim, uma poética que entende a pintura como um original e elaborado tecido dos seus vários tempos, em que conceptualização e execução se harmonizam e valorizam mutuamente na expressão de uma diferença, que é, antes do mais, artística, mas também se situa no plano das convicções mais profundas acerca das atitudes e rupturas face aos tabus culturais.

Fernando António Baptista Pereira
(do texto do catálogo)

In the paintings of great dimensions by Luís Herberto, as well as in the concise studies on paper, there is a impressive domination of the human figure, either in its (only apparent) ontological fragility or in its ineffable loneliness, even though or even so when offered to the voyeuristic eye of the spectator, suggests much more than meets the eye, and stimulates the imagination, to see beyond what is there. The monumental compositions of Luís Herberto distinguish themselves equally by a scrupulous pictorial work of definition of vast spaces, diffused or neutralized which the figures display due to a constant work of colour namely the form. The pictorial work, does not disregard the citation of the genres and the numerous times before in the History of Painting, defining, thus, a poetry that understands the painting as an original and elaborated cloth of its various times, when concept and creation are in harmony and mutually valued in the expression of difference, which is above all artistic, but also situated in the plan of conviction more deep in relation to the attitudes and ruptures in the cultural taboos.

(trad. Catarina Burity Cruz)


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Elsa Garcia ( na TimeOut/ Lisboa #26 )
25 de Março de 2008


O pintor passou do universo dos “bobis” sexuais e fetichistas da série “Sonhos Húmidos” ao mundo conjugal dos “Amuos”. Uma realidade bem portuguesa na exposição “Do Sofá”, na galeria LM, em Sintra, até 10 de Abril, onde o artista expõe juntamente com Carlos Farinha e Gilberto Gaspar.

Normalmente o sofá é aquilo que nos impede de sair de casa e ver uma exposição...
O sofá tem uma grande carga associada ao relaxamento e aos momentos eróticos. Apresenta o lugar privado e individual, o espaço íntimo. Espaço de ócio, de intimidade, de sonho.

Todos pintaram sofás?
Não, na verdade nenhum de nós trabalhou o sofá como objecto pictórico. Tem mais a ver com a criação de espaços dramáticos onde acontece alguma coisa. Há um jogo de prazer, de recusa e de repulsa.

A série que estás a apresentar chama-se “Amuos”. Porquê?
É uma consequência do trabalho anterior. Trata-se de um trabalho com uma carga erótica muito forte e que está muito relacionada com o espírito nacional do amuar. As pessoas amuam por tudo e por nada nas relações pessoais, laborais e sociais, e depois fazem o jogo do está tudo bem. Esta ideia surgiu-me a partir do filme Antes que Anoiteça de Julian Schnabel, sobre as relações pessoais de um escritor homossexual. Este trabalho não tem a carga de provocação negativa que os “Sonhos Húmidos” despoletaram, mas a carga dramática é muito forte porque nós, de facto, estamos sempre a amuar.

Já que falaste nos “Sonhos Húmidos”, como é que surgiu o teu fascínio por “bobis”?
Sabes, não é bem um fascínio por cães. Eu comecei esse trabalho a pensar numa hipotética tese de doutoramento em pintura e estive à procura de um tema provocatório e como já está tudo mais que estudado, acabei por chegar às zoofilias como um referente base. Devo dizer que este trabalho bem me entalou no mercado das galerias.

Porquê? Quais os problemas que tiveste? Reacções extremas aos quadros?
Sim, muito. Primeiro expus na galeria Quadrum e tive algumas críticas da vizinhança e dos artistas do Palácio dos Coruchéus, que se queixaram à polícia por considerarem o trabalho pornográfico e diziam que era impossível mostrar esta exposição às crianças uma vez que era um espaço público e tinha muitas vitrines. Depois tentei arranjar uma galeria a seguir à Quadrum, mas foi impossível. Os galeristas ficaram muito condicionados a este trabalho achando que eu era um artista provocador e pornográfico e esqueceram toda a minha obra anterior.

Para além das zoofilias nunca mais pintaste um tema tão controverso?
Sim. Entre 2003 e o ano passado estive a trabalhar no tema da homossexualidade e nas relações físicas animais, mas sem animais. No entanto, acabei por pintar em cima da maior parte desses trabalhos porque precisava de telas e vendi dois a uns coleccionadores que me pediram anonimato.

Elsa Garcia ( na TimeOut/ Lisboa #26 )

25 de Março de 2008




P I N T U R A S

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Montagem da exposição na Cidadela de Cascais



Three's a crowd...2
Nós e todos os outros... (estudo), 2012; 50 x 50 cm, óleo s/ tela