'NÓS E TODOS OS OUTROS...'

ISEG, 23 DE NOVEMBRO A 26 DE JANEIRO, ISEG, LISBOA


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'NÓS E TODOS OS OUTROS...'

A exposição de Luís Herberto no Instituto Superior de Economia e Gestão enquadra-se num projecto que conta com a colaboração da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. A colaboração entre estas duas instituições de ensino superior acontece por causa do interesse, da sensibilidade e da partilha das questões artísticas e culturais do nosso tempo e por causa da oportunidade de se seleccionarem e mostrarem projectos artísticos relevantes, independentemente do seu estado evolutivo poder situar-se nos domínios da génese ou da maturidade.
No caso desta exposição, que se inaugurará no dia 23 de Novembro de 2011, estamos, seguramente, na presença de um trabalho de grande maturidade, resultante do processo criativo de Luís Herberto, fundado na investigação continua em arte que a profissão de pintor requer.
Neste seu projecto artístico, Luís Herberto faz-nos reviver a boa pintura da tradição figurativa da cultura ocidental, expressiva pelo toque, pela denúncia dos gestos e pela insinuação de um tempo-espaço que apenas esta área da expressão artística consegue transmitir. O recurso ao modelo é uma metodologia constante para a representação de atitudes e acontecimentos cuja veracidade extrapictórica é irrelevante. Mas não é irrelevante o modo como o seu sentido pictórico nos mostra esses modelos.
Eles atingem a dimensão de grandes protagonistas, mantendo no entanto velados os conceitos de retrato ou auto-retrato enquanto géneros. Os seus modelos, na intimidade do estúdio, predispuseram-se ao trabalho de serem os representantes de uma geração. Eles estão envolvidos em cumplicidades insinuantes aos olhos do observador, o qual inevitavelmente se confunde entre aquilo que se percepciona e a materialidade física de obra feita com os gestos que modelam as formas, os espaços, a luz e a cor.
A pintura de Luís Herberto recupera, sem preconceitos, os processos oficinais tradicionais, impregnando-a com a dimensão pertinente que a nossa actualidade exige.

Ilidio Salteiro, 2011.



FUNDAÇÃO D. LUÍS/ CENTRO CULTURAL DE CASCAIS
[30 Julho a 25 Setembro 2011]


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E nós?!, 2009/ 2011 (Col. Fundação Dom Luís/ Cascais)
195 x 195 cm, óleo s/ tela


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Alex
, 2011/ 2012
50 x 50 cm, óleo s/ tela

Folha de Sala/ Luís Herberto/ ISEG,
23 Novembro 2011/ 25 Janeiro 2012

Das primeiras reflexões em que estruturei esta exposição, ao conjunto aqui presente, optei por construir no plano da tela, situações que envolvessem excessiva e directamente o espectador, tornando-o parte integrante no processo de composição. Esta relação torna-se particularmente visível nas pinturas, em que o ‘olhar’ fixo e abusivo, quase insolente, das figuras, desafia directamente um qualquer visitante, no espaço real, para um dialogo a dois. Esta presença do figurante externo, de passagem, ocasional ou não, e que configura uma proposta para uma qualquer trama, integra-se na figuração ensaiada das poses estáticas, dos modelos e candidatos a personagem principal destas narrativas anunciadas. Esta relação íntima, de actor e/ ou figurante, traça um espaço que apresenta a realidade do atelier e se estende para o espaço onde a pintura é apresentada.
E a aparente ‘repetição’ dos espaços cénicos que definem as referencias espaciais nas composições, é na verdade um conjunto estruturador demasiado importante que acentua e cria a narrativa individual: prepara a leitura de uma para outra pintura, outra tela. Este efeito de
raccord - estático, é certo , potencia visualmente a continuidade temática, onde por vezes, se enredam jogos eróticos, quer pela sugestão dos elementos da composição, quer no desenvolvimento da imagem...
Como já tinha referido no texto do catálogo da exposição na Fundação D. Luís
(Nós e Todos os Outros..., Catálogo FDL, Cascais 2011), incluí as “delicadas e minuciosas gravuras de Katsushika Hokusai (1760-1849)”, devolvendo agora ao visitante, o papel exterior (do voyeur) na construção das narrativas pictóricas e possibilitando o jogo erótico num plano auxiliar para a própria pintura. Estas citações não se reportam apenas a uma natureza descritiva e/ ou histórica. São elementos instigadores de prazeres furtivos e traduzem possibilidades pictóricas que, num cenário ilustrativo e caracterizado pelo que a Pintura Japonesa do género permite e anuncia, se apresentam sem a carga ’hardcore’, que uma pintura mais naturalista e dentro de um registo semelhante poderia suscitar...
Esta presença fortuita do espectador possibilita a construção de um cenário que justifica a presença de conteúdos provocatórios, numa versão
light de um qualquer peep-show, transformando o espectador também em voyeur. Ou não!

Luís Herberto


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Three' s a crowd... , 2012
50 x 50 cm, óleo s/ tela