O sangue que em ti derramo_100x100
Estudo para O sangue que em ti derramo é também o meu!
2017/ 18, 100 x 100 cm, óleo s/ tela


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Estudo para O que fazes aqui?
2017/ 18, 100 x 100 cm, óleo s/ tela

O que faz falta é malhar na malta!

Apropriando-me do título da canção que Zeca Afonso escreveu e gravou em 1974, reavivando igualmente uma justa memória à sua obra, resolvi extrapolar alguns dos conteúdos das palavras de
O que faz falta, adaptando na temática escolhida e nos registos gráficos resultantes, diversos momentos em enquadramentos sociopolíticos e transgeracionais, em diversas geografias e igualmente em diferentes opções ideológicas e políticas, nestes quarenta e poucos anos da democracia portuguesa e na sua relação com o exterior.
Mesmo com claras diferenças nos contextos sociais e neste intervalo temporal, nota-se que nos movemos na cegueira. Cegos ao que está claramente à nossa volta, cegos ao que acontece um pouco mais ao lado e do outro lado do globo. Estamos cegos aos atropelos incessantes a direitos básicos que ambicionamos para a condição humana, completamente anestesiados na materialidade e na comunicação visual mediática que preenche a cultura de massas. A tudo isto assistimos com inércia, num
zapping inquieto que vai caracterizando a existência de muitos de nós, neste mundo da pós-televisão de acesso global. Em simultâneo e de um modo estrategicamente direccionado, os poderes políticos em exercício conseguem habilmente reverter a seu favor esta parafernália mediática, com discursos e actividades quase circenses, na expectativa da garantia de permanência inerte na agenda programada pelas lógicas económicas.
Optei por acomodar neste projecto, que será apresentado individualmente no Museu da Guarda, em Agosto próximo, imagens da actuação de forças policiais e paramilitares, em cenários retirados de algumas cinematografias, do jornalismo televisivo, igualmente do registo histórico existente nos inúmeros servidores da
internet, acrescido de encenações no atelier para uma mais prática estruturação destes documentos visuais. São quase exclusivamente momentos reactivos em manifestações várias, sobretudo quando estão em causa atropelos claros à dignidade social e aos mais elementares direitos da nossa existência social e democrática. Contudo, estas acções repressivas denotam sem surpresa, inúmeras contradições, sem esquecer que os seus actores cumprem os seus papéis, em encenações e produções de carácter duvidoso.
O sangue que em ti derramo é também o meu…, alerta para esta situação pouco clara, talvez mais pelo seu título e menos pela composição, apesar de por vezes, há quem leve estas encenações demasiado à letra. Nas referências documentais para a execução do projecto , incluí igualmente as muito actuais pinturas de Júlio Pomar alusivas ao Maio de 68, elas próprias também estruturadas em momentos sociais reactivos, sem esquecer outras encenações semelhantes, mais precisamente as batalhas de Paolo Ucello, que o pintor tomou como ‘suas’, no tema e na sua adaptação, e que agora prosseguem o seu caminho construtor. Estas citações artísticas e fotojornalísticas são irrecusáveis e incontornáveis: Pomar tem sido ciclicamente uma lição de gesto e expressão gráfica, na acção do pincel e da tinta sobre o suporte.
Este projecto está visualmente dividido em duas partes: por um lado, momentos violentos e consequente acção/ reacção dos seus actores, em registos intensos e socialmente politizados na sua exegese social, e por outro, o registo suave da cegueira instalada em todos nós. Quer dizer, uns mais que os outros!

Luis Herberto, Lisboa, Janeiro de 2018