ISPA-Instituto Universitário, Lisboa
Rua Jardim do Tabaco, 34

Esta exposição foi apresentada inicialmente e em parte, com o título
As brincadeiras de Alex, tendo continuado a exploração da série
em pequenos estudos e algumas telas de médio formato.

Contém igualmente algumas pinturas da exposição
Nós e todos os outros...

Algumas destas pinturas foram 'revistas' e sujeitas a novas explorações pictóricas:

Dançam nos meus passos
Dançam nos meus passos... (da exposição Nós e todos os outros... )
2010/ 17, 195 x 292,5 cm, óleo s/ tela


Nem tudo o que parece150x150
Nem tudo o que parece... (da exposição As brincadeiras de Alex)
2015/ 16, 150 x 150 cm, óleo s/ tela


As máscaras de Alex é um projecto em Pintura, que se configura e caracteriza à volta de uma construção ficcional, estruturada a partir de relações sociais que convivem em temáticas como o preconceito, género/ transgénero e sexualidade, entre muitas outras possibilidades nos teatros de vida em que nos movemos. As propostas pictóricas que apresento são construídas a partir deste princípio e de um modo geral, são exploradas visualmente vivências hedonistas que se compõem à margem de preconceitos, mesmo em momentos de rejeição ou consentimento, desenhando as personae admissíveis que Alex assume para se transfigurar no mundo social e no domínio público.

Sem esquecer que o conceito de género difere do conceito de sexo, também se alargam as espectativas, atitudes e valores que cada cultura declara nos seus múltiplos contextos sociais. Sexo, género e sexualidade, são termos discutidos habitualmente como um paradigma de estrutura naturalista, associado à esfera da reprodutibilidade. Contudo, esta leitura é demasiado redutora, admitindo a Foucault explicar o género como uma categoria cultural que constrói o sexo, afastando o desejo do contexto biológico e convencional (História da Sexualidade I. A Vontade de Saber. 1994).

Existe actualmente, um entendimento comum e politicamente correcto que remete a orientação sexual como uma opção pessoal, transcendente ao sexo e ao género, permitindo variações e transformações também de base cultural e não apenas dependentes de factores biológicos. Rosa Martínez ('Sex und Romance'/ A Classic For the Third Millenium, 2002), a propósito desta questão, constrói um argumento que colide, entre outras questões, com a leitura das máscaras que o travesti constrói, enquanto figura de inconformismo a respeito do próprio corpo e a acentuação de características e atributos femininos, enquanto sintoma extremo da (in) definição do género. Não sendo consensual, pode muito bem aplicar-se neste enquadramento, às vivências de Alex, que se transfigura social e fisicamente. Mas não seremos todos travesti de nós próprios?

Em simultâneo com estas leituras e montagens caracterizadoras para a construção das personagens/ figuras, existe o recurso a todo um conjunto de referentes/ citações visuais para as soluções compositivas nas representações dos jogos sociais de Alex, a partir do enredo da transfiguração do corpo. São composições muitas vezes trabalhadas com o recurso ao print screen do registo cinematográfico, como em
La Vie d'Adèle (2013), de Abdellatif Kechiche, ou Va Savoir (2001), de Rivette, por exemplo. Por vezes, são mesmo snapshots retirados nas salas de cinema com recurso às captações digitais em baixa resolução, ensaiados em conjunto com imagens diversas retiradas de publicações impressas.

Em complemento a esta utilização de ‘memórias gráficas’, que mais não são que genuínas ajudas para a memória das formas, cores e outros atributos visuais, o recurso a alguns registos do natural permite com eficácia o apontamento das proporções e outros atributos formais. Sobretudo quando surge alguma visita no atelier, que poderá ser abruptamente convocada para registo de algumas posturas, acção que permite contornar a bidimensionalidade que a fotografia apresenta.

Outras vezes, mais excepcionalmente, há o recurso a encenações e sessões fotográficas no atelier - muito na linha de uma influência que resolvi vincular às práticas investigativas na Pintura, provocada pela original montagem do filme
Caravaggio (1986), de Derek Jarman, que no final da década de 1980, entre outras possibilidades, fez parte da formação inevitável para quem arriscava estas andanças. Neste sentido, a encenação cumpre eficazmente o seu papel, bem como o recurso aos inúmeros referentes da pintura e do cinema.

Nas pesquisas e interrogações para a Pintura, há também um uso recorrente da reflexão sobre a produção plástica de outros artistas que operam nas temáticas sexualmente explícitas. Entre outros, talvez uma das que suscitam mais curiosidade seja Natacha Merritt, cujos
Digital Diaries nos deixam perplexos. Não pela objectividade com que representa as suas próprias experiências sexuais, mas sobretudo porque ainda não nos é possível reunir um consenso para a construção do pudor que permite ou afasta obras desta natureza do domínio público. Neste domínio, a fronteira entre arte e pornografia é ainda demasiado rígida, impedindo, nos públicos desavisados, uma fusão que permita um pensamento crítico estruturante nestas matérias.

Em algumas pinturas, recorro, com grande destaque, quer na dimensão, quer na aplicação técnica, a citações visuais de Katsushika Hokusai (1760-1849), mais conhecido pela célebre xilogravura
A Grande Onda sobre Kanagawa (ca. 1829-1833), contudo, com uma produção bastante peculiar nas muito celebradas ‘imagens da Primavera.’ São gravuras bastante assertivas na representação do sexo explícito, mas configuram igualmente composições intimistas e provocatórias no seu contexto original e que conseguiram penetrar na cultura artística à escala global, assumindo presentemente o seu lugar, com notáveis demonstrações públicas e editoriais. Não podemos igualmente esquecer que esta arte sexualmente explícita tem originalmente múltiplas leituras. Celebra o prazer e a liberdade sexual, com manifesta utilidade em alguma educação sexual, contudo, estava igualmente sujeita a censuras e restrições rigorosas, o que nos mostra que a difícil relação entre arte e sexo não é uma problemática apenas da cultura ocidental. São gravuras ricamente coloridas que incorporo ocasionalmente no meu trabalho desde a exposição Nós e todos os outros…, apresentada em 2011 (Fundação D. Luís, Centro Cultural de Cascais, 2011), em citações cuja escala subverte a orgânica original e que se assumem numa orientação cenográfica. Estas citações foram depois continuadas na exposição As brincadeiras de Alex, apresentada em Lisboa (Espaço Cultural das Mercês, 2016), abrindo caminho para o presente conjunto de pinturas, que reúne ensaios destes dois momentos expositivos, com manifestas alterações compositivas na quase totalidade das pinturas que aqui admiti prolongar, incluindo agora algum material inédito.

Esta possibilidade da reconstrução pictórica pode assumir-se para alguns, como uma profanação da matéria do que configura uma obra acabada, desvirtuando alguns conceitos que promovem a continuidade da experimentação plástica como um processo evolutivo. A ideia de conclusão pode ainda significar um processo inatingível, mais definido pela intencionalidade do limite, do que propriamente na sua execução. E de facto, assim é para mim, porque a possibilidade do reinterpretar e reconstruir da pintura não tem necessariamente de recorrer à multiplicação do suportes e pode também ser aplicada às obras já catalogadas e expostas. É uma prerrogativa do autor, que entende certamente que ainda existe algo por dizer, partindo do princípio que nem tudo foi dito.

Luís Herberto, Lisboa 2017
(texto do catálogo, edição ISPA, 2017)