AS BRINCADEIRAS DE ALEX...

Espaço Cultural das Mercês, Lisboa
[7 a 27 de Abril 2016]


Quem é Alex? (texto de Ilídio Salteiro)

Afinal eram quatro horas da tarde e ainda não tinha visto nada. A exposição que pensei visitar, na Fundação Calouste Gulbenkian, naquele domingo à tarde, deixou-me suspenso à porta, apenas porque não consegui cumprir o que me propuseram: comprar um bilhete a troco de 30 minutos em fila de espera e alguns momentos de fruição da Colecção de Wentworth Fitzwilliam. Tratando-se de uma coisa normal que já fiz centenas de vezes, esta brilhante exposição não se encontrava no âmbito das minhas necessidades. Reconheço indiscutivelmente o seu valor como património artístico e cultural, mas fiquei inquieto quando pensei na imensidão de gente que se encontrava a produzir patrimónios artísticos e culturais naquele mesmo instante, embora noutros locais e com outros meios. Em consequência desta sensação e para preencher devidamente esse fim de domingo, optei por telefonar a um amigo e perguntar-lhe se ele estava no ateliê.

E fui até lá.

Luís Herberto estava a trabalhar telas de médias e grandes dimensões, entre tubos de tinta, óleos, médiuns e pincéis, organizando figurações, retratos e narrativas, arquitetando espaços, registando gestualidades testemunhas de emoções, deixando perceber uma tonalidade média de cor, embora com grandes contrastes, tudo imbuído de referências e citações culturais, umas relativamente explicitas ao género Shunga (Imagens da Primavera) e a Katsushika Hokusai, outras ao expressionismo figurativo de tradição ocidental.

Naquele espaço encontravam-se obras esboçados, outras em plena execução e ainda outras em fase de reflexão mas suscetíveis de serem transformadas. Estava no seio de efervescências criativas, ciente do privilégio de estar desse modo em sintonia com o meu tempo. Tudo isto mereceria um agradecimento por nos ser possível entrar num universo onde a arte se equaciona e faz. E tudo isto deve ser entendido como um grande sentido de responsabilidade porque tudo aquilo que dissermos e conversarmos, naquele contexto, pode interferir no processo, porque temos consciência que, mesmo sem o querermos, como quaisquer outros, somos agentes que podemos acionar ou desencadear outras soluções estéticas. Quais? Só o artista saberá, só ao artista competirá.

Alex é a estrutura do pensamento que desencadeou a produção artística de Luís Herberto nos últimos meses. O título «As brincadeiras de Alex», constitui o enredo de uma narrativa subjacente e subliminar em cada obra. Na visão panorâmica do seu ateliê, com obras encostadas umas sobre as outras, expostas na parede, nas mesas e em cavalete, reflete-se o aprofundamento da sua própria expressão pictórica, através da evidência do toque, da sabedoria do desenho, e por um sentido compositivo que coloca os representados em confronto direto com qualquer observador que delas se aproxime. Percebe-se também um pensamento que transporta para as representações pictóricas as inquietantes questões de género e de sexualidade que se debatem na época atual.

Uma inquietação entre ter expressão e ser género que se revela pertinente tanto na pintura como na vida. Será que para cada género existe uma expressão? O género condiciona a expressão? Quando se fala de género fala-se de pintura ou de pessoas? Quando se fala de expressão fala-se de estilo ou de liberdade? O hibridismo que se verifica hoje nos géneros artísticos é consentâneo com os hibridismos sociais?

A expressão como manifestação do pensamento, resulta de uma possibilidade única, impartilhável, que identifica algo ou alguém pelo modo como se apresenta. O género manifesta-se pela pergunta provocadora que Luís Herberto nos obriga a fazer: Quem é Alex e quais são as suas brincadeiras?

A pintura de Luís Herberto abre-se numa figuração assumida e consciente sem preconceitos de correntes ou vanguardas, onde o modelo não se distingue do retratado ou onde o ator se cruza com a personagem. Deste modo fala-nos tanto das transfigurações, transmutações ou alterações, como das hesitações e conflitos com que os corpos e as almas se debatem hoje. Assuntos que adquirem forma pictórica, retomando um meio verdadeiramente relacional
(1). O que levou Marcel Duchamp a afastar-se da pintura em 1912 em Paris, cansado da insensatez e da ingenuidade do círculo dos seus amigos (2), tem sido o que leva Luís Herberto a aproximar-se dela, cem anos depois, em Lisboa, retomando o prazer da arte pelo seu sentido de fazer arte, e por conseguinte pela tomada de consciência de humanidade.

Com uma obra cada vez mais vasta e um longo e cada vez mais consolidado percurso como artista pintor de um período expectante para todos nós, caracterizado pelo fim de um milénio e o inicio de outro, a exposição que Luís Herberto nos propicia, corresponde ao nosso universo, sem anacronismos, com coerência estética, com extremo saber e com uma indiscutível qualidade formal e compositiva.


Ilídio Salteiro, Lisboa 2016



(1) Bourriaud, Nicolas. Esthétique relationnelle. Dijon: Les press du réel, 1998
(2) Duchamp, Marcel. Engenheiro do Tempo, entrevistas com Pierre Cabanne. Lisboa: Assirio & Alvim, 1990, pp. 24-25



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Aqui é um lugar seguro!
2016, 150 x 150 cm, óleo s/ tela



Este es un lugar seguro
un instante de certeza,
un momento de silencio.

Este es un lugar seguro
mientras me sacia tu aire
ofreciendo el mismo sexo.

Este es un lugar seguro
en el roce de tus labios
cobijándonos en un beso.

Montserrat Villar González
Morille, 16/ 07/ 2016