INVESTIGAÇÃO, PROCURA, INTERROGAÇÃO, CITAÇÃO

PROJECTO APRESENTADO NO MUSEU DE LANIFÍCIOS DA UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR.
COM ARTUR RAMOS, ILÍDIO SALTEIRO E JOÃO PAULO QUEIROZ


O referente inicial para este projecto, reside em algumas icónicas imagens que Julius Shulman realizou na década de 1960, neste caso, a arquitectura modernista de Pierre Koenig, que incorpora bem o sonho americano e a eficácia desta relação com os materiais industriais, propondo uma verdadeira caixa de luz em união com o céu da Califórnia. Não podemos esquecer que esta década, tão ecléctica nas suas determinantes propostas sociais e políticas, é também um palco para a exploração de novos mundos tecnológicos, resultando num aparato visual que se liberta rapidamente dos modelos visuais anteriores à II Grande Guerra e que assumia soluções futuristas, sem esquecer o pragmatismo estrutural que determina a síntese nas soluções estéticas e construtivas.
Estas propostas de arquitectura glamorosa representaram bem na sua época, uma realidade que ainda hoje garante uma actualidade criativa e estão agora imortalizadas por Shulman, assegurando solidamente o seu lugar no vasto mundo das Artes Visuais. Estas fotografias tornaram-se talvez nas imagens publicitárias com mais divulgação do ramo imobiliário.
Acentuando este carácter universal que certos projectos imprimem à nossa experiência, as fotografias de Shulman são representações estruturalmente conceptualizadas, que nos possibilitam um redireccionar para a esfera da Pintura, em dinâmicos jogos de composição, confrontando habilmente o espaço real no enquadramento fotográfico, também na sua relação com o corpo, acentuando deste modo a comunicação visual.
‘Certas cores do vento…’, segundo Shulman! é uma composição que se reinterpreta em vários estudos, prévios e posteriores, extraídos directamente de uma destas conhecidas imagens, destinados unicamente a ensaiar questões formais da pintura, como cor, traço, matéria, gesto, proporção ou mesmo memória. Neste conjunto de ensaios, implicava trabalhar sem o apoio visual da fotografia e a partir daí, desenvolver um conjunto de estudos que permitisse alguma coerência visual. Naturalmente, desprovido do ‘texto visual’, seria natural prever algumas variações ao referente em causa, apesar da visível repetição estrutural patente nestas ‘Variações…’, ensaiadas a partir de ‘Case Study House no. 22, Los Angeles’ de Julius Shulman.


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'Certas cores do vento...', segundo Shulman!
2016, 130 x 130 cm, óleo s/ tela

ENCONTRO, SOBRESSALTO, APROPRIAÇÃO

Tropecei acidentalmente nestas imagens, quando ensaiava pequenos estudos em trabalhos de campo, cujo objectivo é a manutenção do que se chama prosaicamente a ‘mão do artista’ ou de um modo mais concreto, um modo eficaz de preservar a escrita do Desenho. De referir que o caminho para o entendimento das formas não está limitado à observação do natural e consequente representação, sendo de carácter obrigatório, em simultâneo, a exploração da cultura visual, pelo texto e pela imagem.
No registo do espaço real (neste caso, as encostas solarengas da Praia da Parede), o testemunho do olhar é também um pretexto descritivo para o recurso à Perspectiva, enquanto garantia para determinados factores da objectividade da representação. Estão aqui implícitos dados estruturais desta ciência do Desenho, que há muito permite a demonstração rigorosa e estática do efeito óptico estereoscópico, antecipando-se à fotografia ou à imagem em movimento. Correndo aqui o risco de alguma repetição, a imagem renascentista anuncia toda a evolução tecnológica da fotografia e do cinema, que justamente, recorre ao discurso compositivo que conhecemos na História da Pintura, acrescentando-lhe a vantagem do discurso ficcional, quando necessário. Por outro lado, o registo fotográfico mantém intactos os mecanismos visuais que asseguram a verosimilhança do espaço real. É o contexto da imagem que permite transfigurações simbólicas, pois se o registo mecânico permite uma captação objectiva do campo visual do observador, a representação gráfica oferece-nos o poder da síntese formal e da decisão compositiva.
Deste modo, a análise formal do espaço real - natural e/ ou arquitectónico, é traduzida pelo recurso gráfico da linha, possibilitando o ensaio de inúmeras possibilidades visuais. Contudo, o discurso da síntese é sempre preponderante. Em acréscimo, a utilização fluída das técnicas de representação rigorosa na divertida Perspectiva.
Mas curiosamente, as possibilidades comunicativas do traçado, descritas na carga expressiva da linha, são nestas propostas de pintura, substituídas pela síntese da recta traçada com o auxílio de uma tábua ou qualquer outro objecto que permita obter linhas o mais aproximadas da recta geométrica, de modo a evidenciar a construção de planos cromáticos numa forma plástica que é em simultâneo síntese e matéria. Cada uma destas composições revela um exercício de geometrização formalista, que sem perder a sua estrutura material, deixa bem claro o que representa. Poderíamos igualmente avançar para uma exemplificação de um espaço real que vive de uma composição geométrica e abstracta - no sentido etimológico, num afastamento deliberado do registo fotográfico e sedimentadas nas regras da Perspectiva Linear.
Todos estes pretextos são válidos e não possuem exactamente uma categoria hierárquica para a sua construção, podendo ser utilizados como referentes, sem necessariamente determinarem rotinas gráficas e plásticas. E é precisamente nesta (des) organização preparatória, que se estabelecem relações visuais, nos materiais e na sua aplicação, com as memórias dos espaços, a par da recuperação de dados visuais como contrastes cromáticos, proporções ou outros elementos construtivos que surgem durante o processo.


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Variações sobre 'Certas cores do vento...', segundo Shulman!
2016, 80 x 80 cm, óleo s/ tela

PRETEXTO, PROSPECÇÃO, PROCESSO

Uma interpretação mais literal destas propostas pictóricas, através do título que o Ilídio Salteiro propôs para esta exposição, revela-nos que as três palavras se fundem numa actividade exploratória cujo propósito é seguramente o próprio processo da investigação plástica, remetendo as soluções apresentadas para um plano contemplativo, o que por vezes torna incerta a avaliação em todo o seu contexto - teoria e práticas.
Neste sentido, é importante salientar que o desenvolvimento de uma actividade artística como é a da pintura, quando implica uma conceptualização e dramas da realização constantes, é algo em permanente mutação, permitindo sempre uma qualquer intervenção, quer num pequeno apontamento gráfico/ cromático, quer mesmo em alterações significativas que podem implicar uma mudança de rumo temático. Pode também significar uma anulação visual do próprio trabalho, transformando-se novamente em suporte para outras soluções, o que neste caso, é sempre uma mais-valia formal pela estratigrafia pictórica que declara. Em casos mais extemos, poderá mesmo apontar para a recusa da sua materialização.
O lugar da Pintura é em simultâneo o lugar da sua investigação, permitindo múltiplas e diversas abordagens. Pode-se igualmente afirmar que um desprendimento material da ‘obra acabada’ pode induzir ao erro da generalização e leituras frágeis por parte do espectador, já que, no senso comum, a necessidade de conclusões é um imperativo resolutivo muito estruturado no pensamento plástico e facilmente adaptado aos públicos. Contudo, por parte do artista, a esta necessidade do espectador/ fruidor, implica um modo operativo exponencialmente alargado às possibilidades criativas, mais definidas pelos limites das suas relações materiais e sensoriais, do que efectivamente pela sua intencionalidade.
No seu já histórico e muito actual ensaio Discours sur la cécité du peintre (1985), uma obra inevitável para quem se dedica a esta actividade e nela reconhece os seus intervenientes, Júlio Pomar anuncia para cada pintura, a necessidade de se resolver noutra, de continuar as interrogações e permitir que as dúvidas fiquem também registadas no suporte. Por um lado, uma acção desta natureza permite obter de imediato, um considerável número de propostas visuais, estimulando a coerência formal, a experimentação gráfica e cromática, os aspectos compositivos e também técnicos. Por outro lado, regista inevitavelmente o processo evolutivo do artista, possibilitando ao próprio e ao mundo exterior, uma aprendizagem da sua escrita. Dito de outro modo, as conclusões nesta actividade podem ser muito restritivas. Porque implicam limites e promovem a cristalização.
Estas considerações d'après Pomar, entre outros artistas que têm o seu lugar na minha galeria de referências, como Luís Dourdil, Michael Andrews ou Frank Auerbach, entre muitos outros, são estruturantes para o trabalho que desenvolvo em Pintura, muito levemente a partir dos finais da década de 1980, os primeiros anos de encontro com a Pintura e as demais Artes Plásticas, mais rigorosamente no período final em que estudei na Faculdade de Belas-Artes, em Lisboa, sobretudo os anos entre 1994 e 1997, estando sem quaisquer dúvidas, incorporadas até ao presente.
A ideia de evolução na continuidade tem servido de linha condutora, quer para cada série temática, quer em estudos mais acidentais, como é o caso da experimentação em pequeno formato aqui presente. É também um pensamento que agreguei ao processo criativo e experimental, no desenvolvimento do trabalho plástico. Tem sido igualmente uma referência incontornável na mensagem que passo na actividade docente e no ensino do Desenho, na promoção de um desenvolvimento evolutivo e de um constante questionar sobre as formas e o modo de as representar.


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Variações sobre 'Certas cores do vento...', segundo Shulman!
2016/ 17, 30 x 30 cm, óleo s/ tela


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Variações sobre 'Certas cores do vento...', segundo Shulman!
2016, 80 x 80 cm, óleo s/ tela



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Variações sobre 'Certas cores do vento...', segundo Shulman!
2016, 30 x 30 cm, óleo s/ tela



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Variações sobre 'Certas cores do vento...', segundo Shulman!
2017, 80 x 80 cm, óleo s/ tela