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Aqui é um lugar seguro!
2016. 130 x 130 cm, óleo s/ tela

Este es un lugar seguro
un instante de certeza,
un momento de silencio.

Este es un lugar seguro
mientras me sacia tu aire
ofreciendo el mismo sexo.

Este es un lugar seguro
en el roce de tus labios
cobijándonos en un beso.

Montserrat Villar González
Morille, 16/ 07/ 2016


Quem é Alex?

Afinal eram quatro horas da tarde e ainda não tinha visto nada. A exposição que pensei visitar, na Fundação Calouste Gulbenkian, naquele domingo à tarde, deixou-me suspenso à porta, apenas porque não consegui cumprir o que me propuseram: comprar um bilhete a troco de 30 minutos em fila de espera e alguns momentos de fruição da Colecção de Wentworth Fitzwilliam. Tratando-se de uma coisa normal que já fiz centenas de vezes, esta brilhante exposição não se encontrava no âmbito das minhas necessidades. Reconheço indiscutivelmente o seu valor como património artístico e cultural, mas fiquei inquieto quando pensei na imensidão de gente que se encontrava a produzir patrimónios artísticos e culturais naquele mesmo instante, embora noutros locais e com outros meios. Em consequência desta sensação e para preencher devidamente esse fim de domingo, optei por telefonar a um amigo e perguntar-lhe se ele estava no ateliê.

E fui até lá.

Luís Herberto estava a trabalhar telas de médias e grandes dimensões, entre tubos de tinta, óleos, médiuns e pincéis, organizando figurações, retratos e narrativas, arquitectando espaços, registando gestualidades testemunhas de emoções, deixando perceber uma tonalidade média de cor, embora com grandes contrastes, tudo imbuído de referências e citações culturais, umas relativamente explicitas ao género Shunga (Imagens da Primavera) e a Katsushika Hokusai, outras ao expressionismo figurativo de tradição ocidental.
Naquele espaço encontravam-se obras esboçados, outras em plena execução e ainda outras em fase de reflexão mas susceptíveis de serem transformadas. Estava no seio de efervescências criativas, ciente do privilégio de estar desse modo em sintonia com o meu tempo. Tudo isto mereceria um agradecimento por nos ser possível entrar num universo onde a arte se equaciona e faz. E tudo isto deve ser entendido como um grande sentido de responsabilidade porque tudo aquilo que dissermos e conversarmos, naquele contexto, pode interferir no processo, porque temos consciência que, mesmo sem o querermos, como quaisquer outros, somos agentes que podemos accionar ou desencadear outras soluções estéticas. Quais? Só o artista saberá, só ao artista competirá.

Alex é a estrutura do pensamento que desencadeou a produção artística de Luís Herberto nos últimos meses. O título «As brincadeiras de Alex», constitui o enredo de uma narrativa subjacente e subliminar em cada obra. Na visão panorâmica do seu atelier, com obras encostadas umas sobre as outras, expostas na parede, nas mesas e em cavalete, reflecte-se o aprofundamento da sua própria expressão pictórica, através da evidência do toque, da sabedoria do desenho, e por um sentido compositivo que coloca os representados em confronto directo com qualquer observador que delas se aproxime. Percebe-se também um pensamento que transporta para as representações pictóricas as inquietantes questões de género e de sexualidade que se debatem na época actual.
Uma inquietação entre ter expressão e ser género que se revela pertinente tanto na pintura como na vida. Será que para cada género existe uma expressão? O género condiciona a expressão? Quando se fala de género fala-se de pintura ou de pessoas? Quando se fala de expressão fala-se de estilo ou de liberdade? O hibridismo que se verifica hoje nos géneros artísticos é consentâneo com os hibridismos sociais?

A expressão como manifestação do pensamento, resulta de uma possibilidade única, impartilhável, que identifica algo ou alguém pelo modo como se apresenta. O género manifesta-se pela pergunta provocadora que Luís Herberto nos obriga a fazer: Quem é Alex e quais são as suas brincadeiras?

A pintura de Luís Herberto abre-se numa figuração assumida e consciente sem preconceitos de correntes ou vanguardas, onde o modelo não se distingue do retratado ou onde o actor se cruza com a personagem. Deste modo fala-nos tanto das transfigurações, transmutações ou alterações, como das hesitações e conflitos com que os corpos e as almas se debatem hoje. Assuntos que adquirem forma pictórica, retomando um meio verdadeiramente relacional (Bourriaud, Nicolas. Esthétique relationnelle. Dijon: Les press du réel, 1998). O que levou Marcel Duchamp a afastar-se da pintura em 1912 em Paris, cansado da insensatez e da ingenuidade do círculo dos seus amigos (Duchamp, Marcel. Engenheiro do Tempo, entrevistas com Pierre Cabanne. Lisboa: Assirio & Alvim, 1990, pp. 24-25), tem sido o que leva Luís Herberto a aproximar-se dela, cem anos depois, em Lisboa, retomando o prazer da arte pelo seu sentido de fazer arte, e por conseguinte pela tomada de consciência de humanidade.

Com uma obra cada vez mais vasta e um longo e cada vez mais consolidado percurso como artista pintor de um período expectante para todos nós, caracterizado pelo fim de um milénio e o inicio de outro, a exposição que Luís Herberto nos propicia, corresponde ao nosso universo, sem anacronismos, com coerência estética, com extremo saber e com uma indiscutível qualidade formal e compositiva.

Ilídio Salteiro, Lisboa 2016

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Nem tudo o que parece!
2016/ 17, 150 x 150 cm, óleo s/ tela


As máscaras de Alex é um projecto em Pintura, que se configura e caracteriza à volta de uma construção ficcional, estruturada a partir de relações sociais que convivem em temáticas como o preconceito, género/ transgénero e sexualidade, entre muitas outras possibilidades nos teatros de vida em que nos movemos. As propostas pictóricas que apresento são construídas a partir deste princípio e de um modo geral, são exploradas visualmente vivências hedonistas que se compõem à margem de preconceitos, mesmo em momentos de rejeição ou consentimento, desenhando as personae admissíveis que Alex assume para se transfigurar no mundo social e no domínio público.

Sem esquecer que o conceito de género difere do conceito de sexo, também se alargam as espectativas, atitudes e valores que cada cultura declara nos seus múltiplos contextos sociais. Sexo, género e sexualidade, são termos discutidos habitualmente como um paradigma de estrutura naturalista, associado à esfera da reprodutibilidade. Contudo, esta leitura é demasiado redutora, admitindo a Foucault explicar o género como uma categoria cultural que constrói o sexo, afastando o desejo do contexto biológico e convencional (História da Sexualidade I. A Vontade de Saber. 1994).

Existe actualmente, um entendimento comum e politicamente correcto que remete a orientação sexual como uma opção pessoal, transcendente ao sexo e ao género, permitindo variações e transformações também de base cultural e não apenas dependentes de factores biológicos. Rosa Martínez ('Sex und Romance'/ A Classic For the Third Millenium, 2002), a propósito desta questão, constrói um argumento que colide, entre outras questões, com a leitura das máscaras que o travesti constrói, enquanto figura de inconformismo a respeito do próprio corpo e a acentuação de características e atributos femininos, enquanto sintoma extremo da (in) definição do género. Não sendo consensual, pode muito bem aplicar-se neste enquadramento, às vivências de Alex, que se transfigura social e fisicamente. Mas não seremos todos travesti de nós próprios?

Em simultâneo com estas leituras e montagens caracterizadoras para a construção das personagens/ figuras, existe o recurso a todo um conjunto de referentes/ citações visuais para as soluções compositivas nas representações dos jogos sociais de Alex, a partir do enredo da transfiguração do corpo. São composições muitas vezes trabalhadas com o recurso ao print screen do registo cinematográfico, como em La Vie d'Adèle (2013), de Abdellatif Kechiche, ou Va Savoir (2001), de Rivette, por exemplo. Por vezes, são mesmo snapshots retirados nas salas de cinema com recurso às captações digitais em baixa resolução, ensaiados em conjunto com imagens diversas retiradas de publicações impressas.

Em complemento a esta utilização de ‘memórias gráficas’, que mais não são que genuínas ajudas para a memória das formas, cores e outros atributos visuais, o recurso a alguns registos do natural permite com eficácia o apontamento das proporções e outros atributos formais. Sobretudo quando surge alguma visita no atelier, que poderá ser abruptamente convocada para registo de algumas posturas, acção que permite contornar a bidimensionalidade que a fotografia apresenta.

Outras vezes, mais excepcionalmente, há o recurso a encenações e sessões fotográficas no atelier - muito na linha de uma influência que resolvi vincular às práticas investigativas na Pintura, provocada pela original montagem do filme Caravaggio (1986), de Derek Jarman, que no final da década de 1980, entre outras possibilidades, fez parte da formação inevitável para quem arriscava estas andanças. Neste sentido, a encenação cumpre eficazmente o seu papel, bem como o recurso aos inúmeros referentes da pintura e do cinema.

Nas pesquisas e interrogações para a Pintura, há também um uso recorrente da reflexão sobre a produção plástica de outros artistas que operam nas temáticas sexualmente explícitas. Entre outros, talvez uma das que suscitam mais curiosidade seja Natacha Merritt, cujos Digital Diaries nos deixam perplexos. Não pela objectividade com que representa as suas próprias experiências sexuais, mas sobretudo porque ainda não nos é possível reunir um consenso para a construção do pudor que permite ou afasta obras desta natureza do domínio público. Neste domínio, a fronteira entre arte e pornografia é ainda demasiado rígida, impedindo, nos públicos desavisados, uma fusão que permita um pensamento crítico estruturante nestas matérias.

Em algumas pinturas, recorro, com grande destaque, quer na dimensão, quer na aplicação técnica, a citações visuais de Katsushika Hokusai (1760-1849), mais conhecido pela célebre xilogravura A Grande Onda sobre Kanagawa (ca. 1829-1833), contudo, com uma produção bastante peculiar nas muito celebradas ‘imagens da Primavera.’ São gravuras bastante assertivas na representação do sexo explícito, mas configuram igualmente composições intimistas e provocatórias no seu contexto original e que conseguiram penetrar na cultura artística à escala global, assumindo presentemente o seu lugar, com notáveis demonstrações públicas e editoriais. Não podemos igualmente esquecer que esta arte sexualmente explícita tem originalmente múltiplas leituras. Celebra o prazer e a liberdade sexual, com manifesta utilidade em alguma educação sexual, contudo, estava igualmente sujeita a censuras e restrições rigorosas, o que nos mostra que a difícil relação entre arte e sexo não é uma problemática apenas da cultura ocidental. São gravuras ricamente coloridas que incorporo ocasionalmente no meu trabalho desde a exposição Nós e todos os outros…, apresentada em 2011 (Fundação D. Luís, Centro Cultural de Cascais, 2011), em citações cuja escala subverte a orgânica original e que se assumem numa orientação cenográfica. Estas citações foram depois continuadas na exposição As brincadeiras de Alex, apresentada em Lisboa (Espaço Cultural das Mercês, 2016), abrindo caminho para o presente conjunto de pinturas, que reúne ensaios destes dois momentos expositivos, com manifestas alterações compositivas na quase totalidade das pinturas que aqui admiti prolongar, incluindo agora algum material inédito.

Esta possibilidade da reconstrução pictórica pode assumir-se para alguns, como uma profanação da matéria do que configura uma obra acabada, desvirtuando alguns conceitos que promovem a continuidade da experimentação plástica como um processo evolutivo. A ideia de conclusão pode ainda significar um processo inatingível, mais definido pela intencionalidade do limite, do que propriamente na sua execução. E de facto, assim é para mim, porque a possibilidade do reinterpretar e reconstruir da pintura não tem necessariamente de recorrer à multiplicação do suportes e pode também ser aplicada às obras já catalogadas e expostas. É uma prerrogativa do autor, que entende certamente que ainda existe algo por dizer, partindo do princípio que nem tudo foi dito.

Luís Herberto, Lisboa 2017
(texto do catálogo, edição ISPA, 2017)